O DESEJO HOMOERÓTICO: UM ESPAÇO EM TENSÃO

 

Kátia da Costa Bezerra - UFMG

 

 

Muitos são os questionamentos que têm pontuado a produção literária portuguesa a partir da segunda metade do século XX, tempo em que o ser humano, vítima de uma crise identitária e de valores, procura refletir sobre a arbitrariedade de categorias que demarcam a idéia de identidade e, conseqüentemente, os papéis sociais. Portanto, neste período, depara-se com uma maior visibilidade para escritores e obras mantidos à margem até então assim como para a emergência de novos sujeitos que vão procurar atuar sobre a cena das relações sociais. Isabel Allegro Magalhães (1995), por exemplo, aponta os anos 50 em Portugal como o período em que ocorre uma verdadeira avalanche de obras escritas por mulheres, sendo que A Sibila, de Agustina Bessa Luís, é apontada como a obra ficcional pioneira de uma escrita feminina que começava a se desenvolver. No entanto, embora não se possa negar a significância de Agustina Bessa Luís, não se pode esquecer da existência de nomes como o de Florbela Espanca. Quanto aos anos setenta em Portugal, estes se caracterizam como um período de efervescência literária, quando surge um número crescente de obras produzidas por mulheres assim como um movimento crítico que procura resgatar e propor novas formas de leitura de escritoras de gerações anteriores. Surgem, então, nomes como os de Lídia Jorge, Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Gabriela Lhansol. Todavia, não se pode negar que a publicação de As Novas Cartas Portuguesa em 1972 assume um papel significativo para literatura portuguesa contemporânea e feminista. O impacto político e social desse livro podem ser medidos não só pela reviravolta política que provocou, mas também rapidez como este foi traduzido para diferentes línguas, tendo suas consecutivas edições se esgotado em pouco tempo.

Maria Isabel Barreto, uma das autoras de As Novas Cartas Portuguesas, tem produzido obras que procuram problematizar verdades e papéis sociais a partir de uma forma de escrita que tem se esforçado por apreender o ser humano na sua complexidade e multiplicidade. Em outras palavras, sua escrita tem se pautado pelo desejo de refletir e questionar as fronteiras que demarcam o espaço da “normalidade” na sociedade portuguesa. Por esse motivo, o presente trabalho pretende voltar-se para seu livro de contos Sensos Incomuns (1993), que como o próprio título anuncia, compõe-se de estórias que lidam com pessoas, sentimentos e valores que são normalmente mantidos em esferas de exclusão. Nesse sentido, o trabalho ficará restrito à análise do conto “O mártir e o redentor”, sendo que o enfoque concentrar-se-á na forma como conto trabalha com a questão do desejo homoerótico, num processo que procura problematizar a noção de identidade.

O conto relata a vida de um rapazinho rechonchudo violado por colegas na escola. Um evento que o faz duvidar de sua masculinidade e se afastar de todos, principalmente das mulheres, uma vez que se sente culpado por ter sentido prazer no momento da penetração. Anos mais tarde, ao conhecer Manuel, um amigo do trabalho, este lhe confidencia sua experiência. Manuel, igualmente excitado pelo relato, tem um momento de ereção que também o leva a hesitar sobre sua própria masculinidade. A dúvida o leva a visitar um psicólogo e uma amiga esotérica, até que Manuel se apaixona e se casa. Seis meses depois do casamento, sua esposa decide deixá-lo para ficar com o amigo do trabalho. Manuel, destroçado, encara o fato como parte de sua missão de redentor.

Ora, antes de voltarmos a atenção para a análise do conto propriamente dito, é importante ressaltar alguns pontos que vão facilitar a leitura do mesmo. Primeiro, deve-se ter em mente que tanto na literatura brasileira quanto na portuguesa houve por parte de muitos escritores uma certa dificuldade em encontrar uma linguagem que desse conta da “configuração do homoerotismo” como nos alerta José Carlos Barcellos (1998). Uma dificuldade que só começa a ser ultrapassada a partir dos anos sessenta. No caso, esse processo de interdição pode melhor ser compreendido quando se tem em mente que o homoerotismo encontra-se normalmente alijado do espaço do convívio humano considerado “normal”, “saudável”, sendo tradicionalmente percebido como um desvio, um vício, a manifestação de uma perversão. Por causa disso, ao longo dos anos, diferentes ciências têm se esforçado em procurar explicações físicas, psicológicas e sociais para esse comportamento desviante. Assim, tanto os discursos médicos, como os discursos teológicos e jurídicos têm procurado delimitar o caráter masculino paradigmático e, conseqüentemente, construir um espaço de exclusão.

O conto de Maria Isabel Barreno capta de forma primorosa essa dinâmica acima descrita. No caso, o relato se constrói através da articulação de diferentes discursos que procuram explicar o comportamento desviante dos dois personagens. Assim, logo nos primeiros parágrafos, seguindo o que é ditado pelo “senso comum”, depara-se com a descrição da forma como o rapazinho se portava quando ainda bem jovem – “freqüentemente distraído em densos pensamentos, muito seus” (39) – um tipo de comportamento concebido como incomum para os jovens de sua idade e que é percebido como resultante da convivência muito próxima com a mãe e as empregadas. Não é por acaso que o pai acusa a mãe de ter transformado o filho em um “maricas” quando este chora em casa se queixando dos maus tratos no colégio.

Além disso, há a presença do discurso médico na figura de um psicólogo. Este, embora se esforce por subtrair toda a carga de culpa que Manuel sente por seu momento de prazer, atribui seu comportamento a um “inferno, um abismo” que existe dentro de todo o ser humano. Nesse caso, a escolha das palavras para explicar o desejo que Manuel sentiu funciona como um índice a mais na percepção negativa que se tem do homoerotismo. Quanto ao discurso místico/religioso, este surge na figura da amiga esotérica, que percebe a experiência como uma missão de redenção que Manuel teria que cumprir, ou seja, o “incidente” deve ser percebido como uma prova que precisa ser vencida para que Manuel consiga o perdão, a salvação.

Resumindo, os diferentes momentos acima referidos evidenciam a forma como discursos normatizadores procuram perpetuar e fixar papéis com base em uma economia que privilegia como pertencente ao domínio do inteligível (ou da normalidade) um modelo heterossexual. Todavia, o processo de desmascaramento dos mecanismos que prescrevem os desejos que devem ser repudiados também se faz presente ao nível da linguagem. Nesse sentido, é importante observar que o processo de coisificação e exclusão a que é submetido o gordo, evidencia-se no conto pelo fato deste ser caracterizado pelo seu aspecto físico – sua gordura – que funciona como um dado definidor de seu desvio. Por isto, este é apresentado, no princípio, simplesmente como rechonchudo, uma vez que sua transgressão se restringe a um olhar distraído. No entanto, mais tarde, quando ocorre a violação e o momento de prazer, este passa a ser denominado de gordo. Já, no final, recebe a alcunha de ex-gordo por ter conseguido se amoldar, de uma certa maneira, aos padrões de comportamento prescritos pela sociedade. No caso, ele se casa com a esposa de Manuel. Outro elemento que vem corroborar o caráter transgressor de seu comportamento é o fato do narrador se referir a ele como rapazinho – termo no diminutivo que normalmente está marcado por uma atitude de deboche, ironia, desprezo.

Entretanto, a eficiência da atuação do poder na regulamentação do desejo pode também ser percebida na forma como as diferentes personagens se referem ao homoerotismo. Nesse caso, o uso de determinados adjetivos e substantivos, torna-se um dado revelador da maneira como se constrói e se interioriza mecanismo de repúdio a certas formas de identidade e certos desejos. Assim o gordo, por exemplo, percebe o homoerotismo como um “desejo perverso”, um momento de humilhação, de abjeção. Manuel, por outro lado, quando ouve o relato do gordo, afirma:

 

Quando percebeu o rumo dos acontecimentos, no passado do seu gordo confidente, o interesse transformou-se em mal-estar; não lhe agradava ficar assim, inesperada e profundamente, envolvido na vida de alguém. Depois veio o terror. O horror, quando sentiu uma súbita erecção ao ouvir relatada a frase ‘dar-nos-á a cada um momento de prazer’, relatada a penetração que a acompanhou. (41, grifos meus)

 

Manuel sente, então, que ao compartilhar o relato e o momento de erecção com o gordo é como se “tivessem feito amor juntos”, o que o leva a referir-se continuamente ao desejo homoerótico como um defeito, algo que o contamina, um desejo obscuro, um pecado original. Um jogo de palavras que talvez indique sua aceitação da explicação da amiga esotérica assim como ajuda a explicar o título do conto. Já o psicólogo, segundo as palavras de Manuel, numa linguagem marcada pela indefinição lhe explica:

 

... que nada daquilo era anormal, nem esquisito, nada daquilo tinha grande explicação. Somos assim mesmo: frágeis, sujeitos a desejos contraditórios e obscuros, sujeitos a fantasias que nada têm a ver com desejos, sujeitos a necessidades que nada têm a ver com desejos ou fantasias; em resumo, inexplicáveis. Dantes, pensava-se que era o demónio que nos invadia esses recessos da alma, agora sabemos que os abismos e os infernos estão em nós. (42, grifo meu)

 

Observando-se atentamente o trecho acima, fica patente que não só o uso do pronome demonstrativo neutro “aquilo”, mas igualmente a forma ambígua como o psicólogo tenta explicar o desejo homoerótico remetem para o processo de interdição existente na fala quando um assunto é considerado tabu. Além disso, deve-se atentar que o tom preconceituoso como percebe o desejo homoerótico fica evidente pelo uso de uma imagística construída a partir de palavras que tradicionalmente tem uma conotação negativa – obscuro, demônio e abismo. Todavia, é interessante ressaltar que o fato do psicólogo alertar sobre as diferentes formas de compreender as causas do homoerotismo aponta para o caráter histórico dos critérios e normas que delimitam o domínio do inteligível (Butler). No caso, o psicólogo adverte que, ao contrário de antigamente quando esta forma de desejo era vista como decorrente da ação do demônio, atualmente este é percebido como algo próprio do ser humano. Portanto, mais uma vez, depara-se no conto com a tentativa de descortinar a forma como se constroem as engrenagens que procuram regular e delimitar as esferas de “normalidade”.

Além disso, para melhor compreender o sentimento de culpa e angústia que domina os dois personagens assim como o fato das outras personagens encararem o homoerotismo como uma perversão, uma transgressão, deve-se reportar ao caráter punitivo da lei que impele à aceitação de categorias como masculino e feminino. Nesse sentido, seguindo a linha de pensamento de Freud que via os indivíduos num primeiro momento como bissexuais, Butler adverte que o caráter homossexual de todos os indivíduos precisa ser rejeitado para que o modelo binário homem/mulher heterossexual seja implantado. Assim, a construção no domínio do simbólico da figura do “maricas” ou, como no conto, o uso de diminutivos como “rapazinho” asumem, conseqüentemente, uma dupla função. Primeiro, essa construção desenvolve um sentimento de horror que compele à aceitação de uma posição sexual (heterossexual) e, segundo, impede a emergência de outras identidades e desejos que poderiam colocar em xeque o modelo binário proposto – modelo construído a partir de oposições e exclusões.

No caso do conto, a eficácia da atuação dos diversos discursos aqui analisados no processo de regulamentação do desejo pode ser percebido pelo fato de que em nenhum momento qualquer das personagens questiona a “naturalidade” do modelo heterossexual. Muito pelo contrário, o modelo sempre percebido como o “correto” e almejado tanto por Manuel quanto pelo gordo, baseia-se no paradigma masculino tradicional. Nesse caso, a abertura de um espaço de questionamento que tenta se contrapor a discursos, formas de representação e práticas sociais opressoras surge pela fala das duas personagens femininas: a amiga esotérica e a esposa de Manuel. No primeiro caso, a tentativa de modificar o papel normalmente atribuído ao homem surge depois da relação sexual entre Manuel e a amiga. No caso, após conseguir o orgasmo, a amiga ironicamente adverte:

 

Tu viste como, disse a amiga esotérica. Hoje aceitaste ser passivo. Os homens têm medo de aceitar a sua passividade: acham-na um pecado contra a sagrada virilidade. Ah, não, disse Manuel, vestindo as calças, tu também, às vezes, simplificas demasiado as coisas. (43)

 

Aqui, a amiga reporta-se a uma série de comportamentos tidos como definidores da dicotomia que delimita os papéis sociais dos indivíduos. Nesse sentido, o homem terá sempre o papel ativo na relação sexual, enquanto à mulher está demarcado o papel passivo. Trata-se, na verdade, de uma dinâmica que procura regular a forma como os indivíduos devem perceber a si próprios, aos seus desejos e à sua forma de inserção na sociedade. Portanto, no momento em que a amiga adverte Manuel sobre a possibilidade do homem ter prazer mesmo com a troca dos papéis tradicionais, esta procura levá-lo a desenvolver uma atitude reflexiva em relação a esses mesmos hábitos, disposições, associações na tentativa de provocar a abertura de espaços que permita a emergência de novos significados.

O segundo momento ocorre no final do conto quando Manuel relata sobre o seu casamento:

 

Depois Manuel apaixonou-se. Conheceu uma mulher e foi tiro e queda...Entretanto o gorducho convivia com o casal, parecia mais bem-disposto, melhorara de aspecto, fizera uma cura de emagrecimento.

Foi sem surpresa que Manuel ouviu sua mulher comunicar-lhe, ao fim de seis meses de casamento, que o deixava para ir viver com o amigo ex-gordo. Ele é uma pessoa sensível, concluiu ela, um homem doce e encantador. (44)

 

Como já foi comentado anteriormente, a mudança física do amigo gordo vai ocorrendo à medida que este vai convivendo com o casal, num percurso que culmina com a decisão da esposa de abandonar Manuel e passar a viver com o agora ex-gordo. Um desfecho que poderia simplesmente reforçar o modelo hegemônico heterossexual, mas que permite a problematização da identidade masculina paradigmática, uma vez que as qualidades que levam a esposa a preferir ficar como o ex-gordo são sua sensibilidade, além do fato deste ser doce e encantador. Predicados, tradicionalmente, conferidos à mulher, mas que aqui são atribuídos a um homem. Depara-se, por conseguinte, com a emergência de uma forma de caracterização que procura construir novos significados que fogem ao sistema de significação disponível. Todavia, é bom ressaltar que se trata de um processo, como o conto deixa perceber, marcado pela angústia e medo de punições, mas que vai pouco a pouco possibilitando a articulação de novas formas de leitura do que é ser homem (Lauretis).

Enfim, o que se percebe ao longo do conto é a forma como o campo social (ou mais especificamente a multiplicidade de discursos que o compõe, como alerta Foucault) funciona como um elemento codificador dos fluxos do desejo, regulando-os, inscrevendo-os, reprimindo-os e delimitando papéis e imagens que, na verdade, alienam e deslocam o desejo (Deleuze e Guattari 1996). Uma dinâmica que pode ser percebida no conto pelo fato das diferentes personagens procurarem continuamente decodificar seus desejos a partir dos modelos impostos por discursos repressores, num processo muitas vezes tenso e alienante. Por essa razão, os códigos sociais devem ser percebidos como estruturas que restringem, delimitam e prescrevem o livre fluxo do desejo. Tanto isso é verdade em relação à sociedade portuguesa que não há qualquer abertura no conto para que qualquer das personagens encontre um caminho diferente daquele pré-determinado. Em outras palavras, o desfecho do conto assinala para a impossibilidade prática de se vivenciar uma relação homoerótica, uma vez que esta ainda está marcada como algo abjeto, aviltante, que acarreta a desaprovação social.

Finalmente, o que se depreende da leitura do conto e da discussão desenvolvida até o momento é que a identidade precisa ser percebida como uma construção histórica que procura inserir o sujeito numa realidade social pautada por uma estrutura rígida e binária que hierarquiza e delimita os papéis sociais. Nesse sentido, a presença de escritas como a de Maria Isabel Barreno, que tentam problematizar a forma como normalmente se percebe o indivíduo, podem levar o leitor a um questionamento de papéis sociais pré-fixados que obedecem a uma sistemática que se baseia na relação gênero-desejo-sexo. Por essa razão, é importante ter em mente que escritas como a de Maria Isabel Barreno funcionam como um espaço que tenta privilegiar um processo de conscientização e resistência que possibilita a construção de novas leituras e identidades, ou seja, as diferentes percepções articuladas no conto permitem que se compreenda a forma como determinados conceitos e práticas sociais discriminatórias e opressivas atuam no nosso dia-a-dia, estruturando a nossa forma de perceber os outros e a nós mesmos.

Nesse sentido, pode-se afirmar que esse conto de Isabel Barreno (e eu incluiria sua escrita de uma forma geral) dialoga com um conjunto de textos que tenta questionar categorias percebidas como estruturas “naturais” que procuram delimitar o domínio do inteligível através de um sistema de exclusão (Richard, 1993). Uma dinâmica que, atuando ao nível do simbólico, repercute no cotidiano dos indivíduos, uma vez que estas categorias e formas de representações procuram aprisionar a livre circulação do desejo e delimitar os papéis sociais, restringindo e prescrevendo, conseqüentemente, os significados que devem ser aceitos como “normais”, “naturais”.

Assim, finalizando, o fato de seu conto se restringir a uma abordagem que procura problematizar a concepção identitária masculina tradicional, denunciando a forma preconceituosa como o desejo homoerótico é percebido por diferentes discursos, sem ao menos aventar para a possibilidade de uma prática que fuja ao modelo heterossexual masculino e feminino, aponta para um impasse ainda presente na sociedade portuguesa de hoje. Um impasse que possivelmente só poderá ser resolvido quando os indivíduos forem aceitos na sua singularidade e multiplicidade, ou seja, quando a diferença e a fluidez foram percebidas como partes integrantes de todos e de cada indivíduo.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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